Direito Processual Civil III — Aula 05

Efeitos dos recursos e poderes do tribunal superior

Objetivos da Aula

Competências

Introdução

Nas aulas anteriores estudámos a admissibilidade dos recursos e a importância das alegações e conclusões.

Nesta aula vamos estudar uma pergunta prática: o que acontece depois de o recurso ser interposto?

A resposta depende do efeito do recurso e dos poderes do tribunal superior. Um recurso pode permitir reapreciação da decisão, mas nem sempre suspende imediatamente os seus efeitos.

O que Significa o Efeito do Recurso?

O efeito do recurso indica as consequências que a interposição do recurso produz sobre a decisão recorrida e sobre a marcha do processo.

A questão central é saber se a decisão recorrida pode continuar a produzir efeitos enquanto o recurso é apreciado ou se fica suspensa até decisão do tribunal superior.

Efeito Devolutivo

No efeito devolutivo, o recurso transfere para o tribunal superior o conhecimento da questão impugnada, mas a decisão recorrida pode continuar a produzir efeitos, salvo regra ou decisão em contrário.

Este é o efeito normal da apelação em muitos casos: o tribunal superior aprecia o recurso, mas a decisão recorrida não fica automaticamente paralisada.

Efeito Suspensivo

No efeito suspensivo, a interposição do recurso impede, suspende ou limita a produção dos efeitos da decisão recorrida enquanto o recurso não for decidido.

O efeito suspensivo pode resultar diretamente da lei ou ser atribuído em determinadas situações, quando se verifiquem os requisitos legais.

Diferença Prática

A diferença entre efeito devolutivo e efeito suspensivo é muito importante.

Se o recurso tiver apenas efeito devolutivo, a decisão pode continuar a ser executada ou produzir consequências. Se tiver efeito suspensivo, a eficácia da decisão fica bloqueada ou limitada até à decisão do recurso.

Exemplo Simples

Imagine que uma sentença condena uma parte a pagar determinada quantia.

Se o recurso tiver efeito meramente devolutivo, a decisão pode, em princípio, continuar a produzir efeitos. Se tiver efeito suspensivo, a execução da decisão fica suspensa enquanto o recurso é apreciado, nos termos admitidos pela lei.

Pedido de Efeito Suspensivo

Em certas situações, o recorrente pode pedir que o recurso tenha efeito suspensivo.

Para isso, pode ser necessário demonstrar prejuízo considerável e prestar caução, conforme o regime aplicável.

A caução serve para equilibrar interesses: protege o recorrido contra o risco de atraso e, ao mesmo tempo, permite ao recorrente evitar consequências graves da execução imediata da decisão.

Subida do Recurso

A subida do recurso diz respeito ao momento e ao modo como o recurso é remetido ao tribunal superior.

Deve distinguir-se o efeito do recurso da sua subida. O efeito responde à pergunta “a decisão fica suspensa?”. A subida responde à pergunta “quando e como o recurso é enviado ao tribunal superior?”.

Tribunal Recorrido e Tribunal Superior

O tribunal recorrido é o tribunal que proferiu a decisão impugnada.

O tribunal superior, ou tribunal ad quem, é o tribunal que aprecia o recurso.

A atuação do tribunal superior depende do objeto do recurso, das conclusões, da lei processual e dos poderes que lhe são atribuídos.

Poderes do Tribunal Superior

O tribunal superior pode confirmar, alterar, revogar ou anular a decisão recorrida, dentro dos limites legais e do objeto do recurso.

Pode também conhecer de questões que o tribunal recorrido devia ter apreciado, desde que o processo forneça os elementos necessários e estejam respeitados os limites legais.

Confirmação da Decisão

O tribunal superior confirma a decisão quando entende que a decisão recorrida deve manter-se.

Neste caso, o recurso improcede e a decisão recorrida mantém os seus efeitos.

Revogação ou Alteração

O tribunal superior pode revogar ou alterar a decisão recorrida quando entende que houve erro relevante na aplicação do direito, na apreciação das questões submetidas ou, nos casos permitidos, na decisão da matéria de facto.

A alteração pode substituir a solução anterior por outra solução considerada juridicamente correta.

Anulação da Decisão

Em certos casos, o tribunal superior pode anular a decisão recorrida.

A anulação pode ocorrer quando existam vícios que impeçam uma decisão válida ou quando seja necessário que o tribunal recorrido pratique novos atos ou reaprecie a matéria.

Regra da Substituição ao Tribunal Recorrido

Em determinadas situações, mesmo que declare nula a decisão que põe termo ao processo, o tribunal superior pode conhecer do objeto da apelação e substituir-se ao tribunal recorrido.

Esta regra procura evitar atrasos desnecessários quando o processo já contém os elementos necessários para decidir.

Modificação da Decisão de Facto

O tribunal superior pode, nos termos legais, modificar a decisão sobre a matéria de facto quando se verifiquem os pressupostos exigidos.

A impugnação da matéria de facto exige especial rigor do recorrente, incluindo identificação dos pontos impugnados e dos meios de prova relevantes.

Limites do Tribunal Superior

O tribunal superior não decide livremente tudo o que poderia ter sido discutido no processo.

Em regra, decide dentro dos limites do recurso, das conclusões, da decisão recorrida e das questões de conhecimento oficioso.

Por isso, a formulação das conclusões continua a ser decisiva.

Questões de Conhecimento Oficioso

Algumas questões podem ou devem ser conhecidas pelo tribunal independentemente da invocação das partes.

Ainda assim, o conhecimento oficioso não elimina a importância dos ónus processuais do recorrente, especialmente quando pretende impugnar matéria de facto ou suscitar erro de direito.

Baixa dos Autos

Quando o tribunal superior não pode ou não deve decidir definitivamente determinada questão, pode determinar a baixa dos autos ao tribunal recorrido.

Isto pode acontecer quando faltam elementos, quando é necessário produzir nova decisão ou quando existem vícios processuais que exigem atuação do tribunal inferior.

Relação com o Caso Julgado

Enquanto o recurso ordinário está pendente, a decisão ainda não está estabilizada definitivamente nos termos normais.

Depois de decididos ou esgotados os meios ordinários de impugnação, a decisão pode transitar em julgado, ganhando estabilidade e força obrigatória.

Ligação à Jurisprudência

A jurisprudência é útil para perceber como os tribunais superiores aplicam na prática os efeitos dos recursos, os limites das conclusões, a alteração da matéria de facto e a substituição ao tribunal recorrido.

Nesta cadeira, a leitura de acórdãos continua a ser complementar e controlada, sem substituir o estudo do Código de Processo Civil.

Ligação à Solicitadoria

Na prática, saber se uma decisão foi recorrida e qual o efeito do recurso pode ser essencial para interpretar certidões, execuções, registos, prazos e consequências patrimoniais.

Em muitos contextos, não basta saber que há recurso; é preciso perceber se a decisão continua ou não a produzir efeitos.

Erros Comuns

Pergunta de Exame

Distinga efeito devolutivo e efeito suspensivo do recurso, explicando os poderes fundamentais do tribunal superior.

Resposta orientadora

O efeito devolutivo transfere para o tribunal superior o conhecimento da questão impugnada, mas não impede necessariamente que a decisão recorrida continue a produzir efeitos. O efeito suspensivo impede ou limita a eficácia da decisão recorrida enquanto o recurso é apreciado, nos casos previstos na lei ou quando seja atribuído nos termos legalmente admitidos. O tribunal superior pode confirmar, alterar, revogar ou anular a decisão recorrida, podendo em certas situações substituir-se ao tribunal recorrido ou determinar a baixa dos autos, sempre dentro dos limites do recurso, das conclusões e da lei.

Exercício Prático

Uma parte interpõe recurso de uma sentença condenatória e assume que, por ter recorrido, nada pode acontecer até decisão do tribunal superior.

Esta conclusão pode estar errada. É necessário verificar o efeito atribuído ao recurso. Se for meramente devolutivo, a decisão pode continuar a produzir efeitos. Se for suspensivo, a eficácia da decisão fica suspensa nos termos legais. A análise deve ainda considerar se foi pedida caução, se há prejuízo considerável e qual o regime aplicável.

Resumo

Os recursos podem ter efeito devolutivo ou suspensivo. O efeito devolutivo permite a reapreciação pelo tribunal superior sem suspender necessariamente a decisão. O efeito suspensivo bloqueia ou limita a produção dos efeitos da decisão recorrida. O tribunal superior pode confirmar, alterar, revogar, anular ou, em certos casos, substituir-se ao tribunal recorrido. A análise dos efeitos do recurso é essencial para compreender as consequências práticas da impugnação.

Mini-quiz

  1. Todo o recurso tem efeito suspensivo automático?
  2. O efeito devolutivo transfere a apreciação da questão para tribunal superior?
  3. Subida do recurso e efeito do recurso são a mesma coisa?
  4. O tribunal superior pode confirmar a decisão recorrida?
  5. As conclusões continuam a limitar o objeto do recurso?

Respostas ao Mini-quiz

  1. Não.
  2. Sim.
  3. Não.
  4. Sim.
  5. Sim.

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